7.10.05

Vida de Menina

Vida de Menina, de Helena Solberg, Brasil, 2004 - Cine Morumbi

Minha Vida de Menina é um livro publicado em 1942 contendo os diários escritos quase meio século antes por uma menina de 13 anos, descendente de ingleses, que vivia em Diamantina, no interior de Minas Gerais. Vida de Menina é a adaptação desses diários de Helena Morley (pseudônimo de Alice Brant) pela diretora Helena Solberg e a roteirista Elena Soárez, que fizeram mais de dez versões do roteiro na busca de traduzir a quase intangível beleza e poesia desse livro que encantou escritores do porte de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e da poetisa Elizabeth Bishop, que o traduziu para o inglês.
Não é pequeno esse desafio de adaptar para o cinema um diário (o que por si só já dificulta a tarefa, por se tratar de uma narrativa episódica, fragmentada) onde na aparência nada acontece (diferentemente de seu colega mais famoso, O Diário de Anne Frank). Entretanto, por baixo dessa aparente tranqüilidade, temos um dos mais belos retratos já realizados da infância e de sua visão de mundo, um comentário mordaz e preciso sobre a sociedade da época e um instantâneo de um país que havia acabado de abolir a escravatura e proclamado a república. Trata-se de um olhar privilegiado, pela idade da protagonista – que se encontra naquela encruzilhada onde já viveu o suficiente para notar as contradições e interesses dos adultos mas não o bastante para perder o deslumbramento diante das pequenas coisas da vida – e pela sua criação inglesa, o que lhe permite um distanciamento crítico na observação de sua realidade.
Para conseguir transpor para o cinema esse olhar pessoal que se encontra nas entrelinhas do diário, por trás de relatos aparentemente banais e cotidianos, são necessárias duas coisas: uma personagem forte o suficiente para conseguir por si só atrair a simpatia e atenção do público e uma linguagem que priorize o poético e não dependa de grandes feitos ou ações para se sustentar.
No primeiro ponto reside o grande trunfo do filme: Helena Morley não apenas é uma personagem fascinante, com sua vitalidade e contradições típicas da pré-adolescência, como Ludmila Dayer nos brinda com uma interpretação precisa e iluminada, injustamente preterida no Festival de Gramado (onde o filme levou seis prêmios, incluindo o de Melhor Filme, Roteiro e Júri Popular).
Já em relação à linguagem, Solberg parece ter buscado essa chave minimalista, porém o resultado foi irregular ao longo do filme. A seu favor conta a direção de arte (que, caso raro no cinema brasileiro, fez uma recriação de época que não tenta se sobrepor ao próprio filme, integrando-se harmonicamente ao conjunto), a bela fotografia de Pedro Farkas e a trilha de Wagner Tiso (embora excessiva em alguns momentos). Entretanto, o filme tem poucos momentos marcantes, seja pelo elenco de apoio irregular, seja pela dificuldade da diretora em atingir a veia poética necessária, o que acaba tornando muitas das cenas folhetinescas e calcadas em um humor simplório.
Realizar Vida de Menina foi uma decisão corajosa de Solberg, ainda mais tendo em vista sua temática muito distinta do grosso da atual produção nacional (o que inclusive atrasou seu lançamento em salas de cinema por mais de um ano). Suas limitações são ocasionadas mais pela grandeza do desafio do que por escolhas erradas da diretora, mas ao final nos deixa com a sensação de termos tido apenas um vislumbre desse raro diamante, o que pode ser uma boa desculpa para aqueles que ainda não leram o livro.

10 Comments:

Blogger Aline said...

"Encruzilhada onde já viveu o suficiente para notar as contradições e interesses dos adultos mas não o bastante para perder o deslumbramento diante das pequenas coisas da vida". Quem é que não está nesse posição?
Espero que o filme seja tão poesia quanto a crítica, e que eu não me esqueça desse tamanho de vontade de assistir que me deu.

7/10/05 18:51  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Infelizmente muitos acabam perdendo esse deslumbramento e é necessário um tanto de esforço no mundo em que vivemos hoje para mantê-lo.

Mas tenho certeza que você vai gostar do filme. Leve sua mãe também, tem a cara dela.

Valeu pelo comentário!

7/10/05 22:46  
Anonymous Mariana said...

Gostei do filme. E também não gostei. Tive as mesmas impressões que você sobre o enredo, os personagens e a montagem. A recriação da época é tão bem feita que nem chama a atenção. E isso, nesse caso, é bom. Mas senti mais uma vez o despreparo dos atores (ou da equipe responsável pelo elenco) em um filme brasileiro que prometia, mas que apenas satisfaz.

10/10/05 14:45  
Anonymous erika said...

Fiquei com vontade de ver o filme. Adorei o livro. Lembra que me emprestou quando fomos passar uns dias no trailer? Eu demorei um bocado pra te devolver. Certamente, a sua versão desse filme ficará primorosa!

1/11/05 10:25  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Nossa, não lembrava que tinha te emprestado o livro, que é realmente muito bom.

Acho que você gostará do filme. Tente ir ver. Se você não valorizar o cinema nacional, quem vai? Hehehe...

1/11/05 11:10  
Anonymous Flavio Cezakyo said...

Tenho medo de adaptações. O livro realmente é lindo, peculiar, sutil, claro que por ser um diário tem hora que vc vê a protagonista cheia de escrever mas de repente volta a tona seu viver. Delícia, vale a pena. Quanto ao filme tô meio com receio, acho que se visse o filme primeiro e depois lesse o livro talvez não tivesse nenhuma impressão que alguns estão tendo aqui. Logo, leiam o livro... Demais. Abraço a todos.

27/7/07 19:32  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Adaptações literárias são realmente sempre complicadas, Flávio, principalmente quando se vai aos filmes com a expectativa gerada previamente pelo livro. Ainda mais no caso de um livro tão sutil quanto "Minha Vida de Menina". Mas, apesar de seus problemas, eu recomendo o filme. Creio que ele vai te trazer muitas lembranças boas do livro.

30/7/07 10:08  
Anonymous Professor said...

É um bom filme, entretanto por se tratar de um filme brasileiro ainda hj não podemos esperar mais do que de fato tem para nos oferecer. Do contrário, nos decepcionaríamos com a ansiedade de superar as expectativas. De qualquer forma, é um filme que em dado momento toca o emocional e retrata uma realidade interessante de nossa história. Recomendo!

26/12/07 03:21  
Anonymous Anônimo said...

oi gente eu tenho 13 anos,to procurando o livro e o dvd mas é dificil de achar a aonde moro acho que so vai ter nesses lugar chiquii e eu não posso ir lá , conheci essa historia pela teve um dia tava sem sono e fiquei assistindo ai passo esse filme na cultura eu assisti fiquei até 2:00h da manhã mas valeu apena descobri esse filme lindo amei gostaria de conhecer a autora.então é isso gosto desse filme, thau.

5/1/11 22:06  
Anonymous Any said...

ótimo post!

10/8/13 18:10  

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