2.8.05

A Fantástica Fábrica de Chocolate

Charlie and the Chocolate Factory, de Tim Burton, EUA, 2005 - Espaço Unibanco

Tim Burton é um daqueles casos raros de diretor que consegue criar um universo pessoal dentro das engrenagens de Hollywood. Desde sua estréia em longa-metragem com As Grandes Aventuras de Pee-Wee, passando por filmes como Os Fantasmas se Divertem, Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, suas fábulas são frutos de uma impressionante imaginação visual, decorrente provavelmente de sua formação em animação, e carregam claramente uma marca autoral, tanto em sua temática quanto na direção artística de suas obras.
Em A Fantástica Fábrica de Chocolate (mais recente parceria entre Tim Burton e o ator Johnny Depp, que já trabalharam juntos em Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça) isso não é diferente.
A história é relativamente conhecida: Willy Wonka é o mais famoso chocolatier do mundo que, após 15 anos de reclusão por receio de espionagem industrial, decide promover um concurso mundial que premiará cinco crianças com um passeio pela sua imponente fábrica. Os felizardos são o glutão alemão Augustus Gloop, a ultra-competitiva Violet Beauregarde, a garota britânica mimada Veruca Salt, o nerd dos videogames Mike Teavee e o guardião dos bons-costumes, da educação e dos valores familiares, Charlie Bucket, um típico personagem de Charles Dickens. Mas a fábrica de chocolate não será o jardim das delícias que as crianças esperavam e, uma a uma, elas irão provar as amargas conseqüências de seus atos, com a exceção já esperada do benévolo Charlie.
Adaptado do livro infantil de Roald Dahl, que já havia rendido uma clássica versão cinematográfica em 1971, dirigida por Mel Stuart e protagonizada por Gene Wilder, o filme de Tim Burton é um deleite para os sentidos, além de um festival de referências pop, como já está se tornando hábito na nova safra de filmes infantis que agradam também ao público adulto, cujo exemplo máximo é Shrek. Aliás, a comparação com esse novo formato de filme “infantil” advindo da revolução digital, mais até do que as comparações com a primeira adaptação para o cinema, é que reforça os pontos fortes e as deficiências deste A Fantástica Fábrica de Chocolate.
Animações como Shrek, Os Incríveis e Monstros S.A. inauguraram uma nova forma de humor infantil, extremamente ácido e que, se carrega uma intenção moralizante – trata-se, afinal de contas, de filme infantil –, o faz de maneira mais sutil, perto da qual a moral explícita do filme de Tim Burton parece antiquada. Em parte isso é conseqüência da fidelidade do filme ao livro de 1964, mas os poucos acréscimos à história original que o roteirista John August se permitiu (como a inserção, através de flashbacks, de um passado justificador da persona de Willy Wonka e o reencontro redentor entre ele e seu pai) contribuem para essa sensação.
Entretanto, Tim Burton vai muito além de qualquer outra experiência de filme infantil, ou mesmo a maior parte dos filmes ditos “adultos”, ao rechear sua obra com alguns momentos verdadeiramente lisérgicos (o saguão principal da fábrica, com sua cachoeira de chocolate e seus cogumelos coloridos, as ovelhas cor-de-rosa sendo tosadas para se fabricar algodão-doce, os impagáveis e inesquecíveis Oompa Loompas, pequenos trabalhadores da fábrica de chocolate que devem ter sido rejeitados no processo seletivo para ajudante de Papai Noel devido a seu caráter anárquico e sua propensão a paródias de AC/DC, Kiss, Queen, Beach Boys e Beatles em seus números musicais) e outros terrivelmente macabros, como os detalhes dos bonecos sendo queimados na recepção das crianças à fábrica, os closes dos esquilos momentos antes do ataque à garota britânica e a assustadora semelhança do Willy Wonka de Johnny Depp com Michael Jackson ciceroneando as crianças pelo seu rancho Neverland.
Outra grande diferença é que, enquanto as animações recentes esforçam-se em tornar seus personagens reais e multifacetados, Tim Burton não se preocupou tanto em desenvolver os seus para além do estereótipo. O próprio Willy Wonka é mais um anfitrião, não apenas para as crianças como para o próprio espectador, do que um personagem propriamente dito.
O foco de Tim Burton está na criação de uma atmosfera (no que contribui em muito a ótima trilha sonora de Danny Elfman), de um mundo próprio e extravagante, que é o mundo de Wonka mas também o do próprio diretor, com todas as suas peculiaridades e idiossincrasias. E é assim que o filme deve ser visto, como um tour pelos delírios e fantasias de uma mente extremamente criativa, autoral e, por vezes, deliciosamente deturpada.

1 Comments:

Anonymous Bianca said...

Eu gostaria de ler uma crítica sobre o Exílios. ;o) Eu saí do cinema frustrada, esperando mais respostas pros "mistérios" levantados e nada! Se o diretor não tivesse tocado tão fortemente no assunto no fim do filme, teria passado despercebido, mas o fato de ele ter feito duas cenas gigantesca só pra falar disso, o obrigam a prestar alguns esclarecimentos que foram deixados de lado. Alguém tbm viu esse filme?

4/8/05 08:14  

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