26.7.05

Cachorro

El Perro, de Carlos Sorin, Argentina, 2004 - HSBC Belas Artes

Embora tenha seu nome vinculado à nova onda do cinema argentino, Carlos Sorin estreou na direção ainda na década de 80, tendo sido premiado no Festival de Veneza com seu primeiro longa-metragem (La Película Del Rey) e trabalhado posteriormente com Daniel Day-Lewis em Eversmile, New Jersey. A esse filme, seguiram-se 13 anos de reclusão na publicidade, até o retorno consagrado com Histórias Mínimas, que recebeu mais de 20 prêmios internacionais. Cachorro veio à luz dois anos depois e a comparação com seu antecessor era inevitável. Infelizmente, para o filme e para os amantes do bom cinema, Cachorro só tem a perder com essa comparação.
Mesmo não sendo uma obra-prima, Histórias Mínimas é um filme respeitável. Com seu minimalismo já explicitado no título, transforma em personagens principais aqueles que estariam fadados a serem eternos coadjuvantes, em três histórias delicadas e repletas de afeição que se cruzam no belíssimo cenário da Patagônia. Já Cachorro parece um rascunho para uma das histórias de Histórias Mínimas, com os personagens ainda não completamente desenvolvidos, a trama cheia de pontas soltas e a música inundando em excesso todas as cenas.
Temos novamente a história da relação entre um homem à margem da sociedade em que vive e seu cachorro. No caso de Histórias Mínimas era o idoso Don Justo em busca de seu cão vira-latas em uma das tramas do filme. Em Cachorro, Juan Villegas, após ser demitido de seu emprego de 20 anos em um posto de combustível, recebe como agradecimento por ter rebocado e consertado o carro de uma jovem senhora um Dogue Argentino de pedigree. O cachorro que dá título ao filme, embora pareça num primeiro momento mais um fardo que o personagem terá que carregar, revela-se na realidade uma solução para seus problemas, uma vez que descobre tratar-se de um belo espécime reprodutor além de um forte competidor em apresentações e competições para cães, mercado que movimenta grandes recursos, "mesmo em um país em crise como a Argentina", como nos informa Walter Donado, personagem que irá auxiliar Villegas na procura por lucros com o cachorro.
Um filme que opta conscientemente por abrir mão de grandes acontecimentos para focar em pequenas histórias depende sobremaneira da empatia de seus personagens e de momentos que transcendam sua simplicidade para revelar algo mais profundo e universal. E é justamente nesses pontos que Cachorro falha. Trabalhando mais uma vez com não-atores, Sorin não teve a mesma sorte que teve com Antonio Benedicti, que personificou um inesquecível Don Justo em Histórias Mínimas. Embora Juan Villegas (que emprestou seu nome ao personagem) não comprometa em sua atuação, tampouco consegue atingir o grau de empatia necessário ao personagem. Adicione-se a isso uma história que raramente supera o trivial e previsível e temos um filme que não diz muito a que veio.
Embora tenha apontado um caminho promissor com Histórias Mínimas, que poderia render belos filmes se mais bem trabalhado e explorado, o diretor errou a mão neste último, passando do minimalista para o pouco interessante. Na tênue linha entre a criação de um estilo e o acomodamento nele, Sorin parece estar pendendo para este último.

1 Comments:

Anonymous Dalton Martins said...

eh muito bom te encontrar pelas linkanias da vida, meu caro!
seja bem vindo!!!!

27/7/05 16:39  

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