20.4.06

Três Enterros

The Three Burials of Melquiades Estrada, de Tommy Lee Jones, EUA, 2005 - Cabine

O Oeste sempre foi um local mitológico para o cinema americano. Desde seus primórdios – tendo como maior exemplo O Grande Assalto ao Trem (curta-metragem de 1903 considerado um marco na história do cinema por ser a primeira narrativa organizada da forma como hoje concebemos o cinema) – até seu apogeu com os clássicos de Ford e Hawks nas décadas de 50 e 60, o faroeste sempre foi a pedra angular sobre a qual se consolidou a cinematografia americana. Nas décadas de 70 e 80, entretanto, o gênero foi relegado ao esquecimento, até sua exumação através das mãos de um de seus atores-símbolo, Clint Eastwood, que em 1992 atuou e dirigiu um dos grandes clássicos do western: Os Imperdoáveis.
Pois é das mãos de outro ator que surge o mais recente filme a explorar em belíssimo cinemascope os cenários do oeste americano para contar a história de homens embrutecidos pelo meio que, apesar disso, mantêm-se fiéis às suas crenças e princípios morais. Não se trata de um exemplar canônico do gênero, como não poderia deixar de ser em pleno século XXI, mas Três Enterros, estréia na direção de Tommy Lee Jones premiada com Melhor Roteiro e Ator no último Festival de Cannes, é um filme digno da mitologia desse espaço chamado Oeste Americano.
Bebendo da fonte de Sam Peckinpah – diretor de clássicos do gênero como Meu Ódio Será Sua Herança e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (filme que possui claras semelhanças com Três Enterros) –, Tommy Lee Jones retrata a luta de Pete Perkins, interpretado por ele mesmo, para manter seus valores (no caso, a importância da amizade e de uma promessa feita há muito tempo) em uma comunidade corrupta, recorrendo à violência quando necessário, porém sem a intensidade tão característica da obra de Peckinpah.
A primeira metade do filme sofre sob a influência de seu roteirista – Guillermo Arriaga (Amores Brutos, 21 Gramas) – que, buscando tornar crível no menor tempo possível a forte amizade entre Perkins e Melquiades Estrada (o morto que sofrerá os três enterros do título), abusa dos saltos temporais que tradicionalmente marcam seus roteiros. Entretanto, quando se inicia a jornada em direção ao descanso final de Melquiades – jornada essa tanto física quanto espiritual –, Jones assume com admirável habilidade a direção da obra, com uma economia e confiança raras em um diretor estreante e com uma atuação na pele do protagonista digna do prêmio que recebeu em Cannes. Tendo atuado com e sob a direção de Clint Eastwood em Cowboys do Espaço, Jones parece ter aprendido bem as lições do velho mestre.
Apesar de alguns excessos ilustrativos, principalmente na caracterização de Mike Norton (o policial da imigração responsável pela morte de Melquiades), uma cena em especial – a ligação telefônica em um bar mexicano – ilustra bem o domínio técnico na direção de Jones. Da fotografia ao uso do som, das atuações à alternância entre os ambientes, tudo funciona à perfeição e com precisão para a criação do clima necessário. Intercalando momentos intimistas com outros de uma ironia próxima ao humor negro, Jones acompanha a trajetória de Perkins e Norton em busca da redenção e de um sentido para suas vidas. Ao final, com uma única e precisa pergunta como último diálogo do filme, Jones expõe todo o peso da vida de seu personagem, colocando em questão a própria possibilidade de redenção.
Em um mundo onde as mortes são anônimas e contadas aos milhares, Tommy Lee Jones se revela um humanista ao dedicar todo um filme à dignidade da morte de apenas um homem. Aos 59 anos, Jones se mostra um diretor promissor.

7 Comments:

Anonymous Ronald Perrone © said...

Tommy L. Jones surpreendeu com esse filme! E lembra bastante mesmo o Sam Peckinpah, principalmente no Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia...

21/4/06 06:25  
Anonymous Roberto Queiroz said...

Ainda não assisti Três Enterros, mas com certeza verei. Fico feliz em ver que o oeste americano voltou a ser lembrado pelo cinema (o tema andava esquecido). E é sempre ótimo ver um talento como Tommy Lee Jones na direção. Fiquei sabendo também que os irmãos Coen irão adaptar um romance de faroeste (não me recordo agora do título). Enfim, é a retomada de um cinema que ajudou a criar Hollywood e, hoje, por conta de porcarias cheias de tecnologia, anda abandonado. Abraços de um admirador de blogs alheios.

21/4/06 12:06  
Anonymous Marcelo Miranda said...

O filme é absolutamente sensacional, humano ao extremo e muito instigante. Se a referência é Peckinpah, o filme lembra também o primeiro longa do mestre, "Parceiros da Morte", com aquele lance de levar o cadáver pra ser enterrado em seu "local de origem". E Lee Jones surpreende como desde já um dos notáveis diretores da atualidade. E Barry Pepper pode finalmente ser reconhecido como o excelente ator que é. Também desde já, um dos melhores filmes do ano...

22/4/06 15:29  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Ronald,

Realmente a estréia na direção do Tommy Lee Jones é uma grata surpresa e a influência de Sam Peckinpah é clara.

Roberto,

Vá assistir, garanto que não irá se arrepender. Depois me conte o que achou. O projeto dos irmãos Coen que você cita é "No Country for Old Men" e eles devem começar a rodar mês que vem, no Texas e Novo México. Outro filme a se aguardar ansiosamente. Sobre esse retorno do Oeste Americano no cinema, estou preparando um pequeno texto sobre isso para a Cinética, que será lançada em breve. Quando for publicada, posto um link aqui para ele.

Miranda,

Infelizmente não assisti "Parceiros da Morte", foi lançado em DVD por aqui? Mas concordo contigo, um dos melhores filmes do ano até agora.

24/4/06 11:20  
Anonymous Marcelo Miranda said...

Sim, Leo, a Aurora lançou "Parceiros da Morte". Vale muito a pena procurar, bela estréia do mestre Sam, ainda que longe das imensas ousadias que viriam depois.

26/4/06 21:08  
Anonymous Nelton said...

O filme é realmente muito bom, apesar de um roteiro simples, e sem muitas surpresas (exceto a cidade de Jimenez e a "esposa de Melquíades), a fotografia é muito bela, parece o Sam mesmo ou o Sergio Leone que está na direção, só achei o começo com seu inúmeros flashbacks um tanto cansativo e desnecessário, poderia ter feito isso na ordem cronológica na minha opinião. Mas eu gostaria de saber se alguém sabe onde achar o "tragam me a cabeça de Alfredo Garcia" do Sam Peckinpah, pois acho que os dois filmes devem ter muito a ver.

16/1/07 12:17  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Nelton,

O problema do começo do filme é justamente a influência excessiva do roteirista Guillermo Arriaga. Depois o Tommy Lee Jones parece ter retomado as rédeas e guiado o filme para a direção maravilhosa que apresentou.

Quanto ao Peckinpah, creio que o mais fácil é baixar o filme da Internet mesmo...

16/1/07 13:11  

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