10.3.06

O crash do Oscar, ou o Oscar de Crash

Páginas e mais páginas foram escritas nesta última semana sobre a derrota de O Segredo de Brokeback Mountain para Crash - No Limite na última cerimônia do Oscar. A maior parte das vezes falou-se em uma recaída retrógrada e homofóbica dos votantes, que não tiveram a “coragem” de votar na história de amor entre dois caubóis de Ang Lee como melhor filme do ano.
Mas, por mais adepto que se seja a teorias da conspiração, é difícil imaginar um grupo de velhos senhores de Hollywood maquiavelicamente reunindo-se para barrar a “onda gay” que ameaçava varrer os EUA, como se fossem cavaleiros em uma cruzada pela moral e os bons costumes.
Primeiro porque os famosos “velhinhos” da Academia já nem são tão velhinhos assim, já que a Academia tem se rejuvenescido ao longo dos últimos anos. Em segundo lugar porque Hollywood ainda é um dos recantos mais liberais dos Estados Unidos, e para comprovar isso basta ver os próprios indicados para a premiação deste ano.
Embora tenha-se buscado os motivos para a derrota de Brokeback Mountain, pouco se analisou o porquê dos votantes da Academia terem optado por Crash em seu lugar. Afinal de contas, qualquer um dos outros três candidatos (Boa Noite e Boa Sorte, Munique e Capote) seriam mais dignos da estatueta do que o preferido pela Academia e não levantariam tanta indignação entre os amantes da sétima arte. Mas, ao invés disso, foi eleito um filme que já era motivo de piadas simplesmente por constar entre os principais indicados e que, para muitos, é na verdade considerado um dos piores filmes do ano e, provavelmente, o pior já agraciado com o prêmio máximo do Oscar em seus 78 anos de história. Mas então, o que aconteceu?
A verdade é que houve sim preconceito por parte dos membros da Academia em relação a Brokeback Mountain, mas não devido à sua temática homossexual ou seu potencial transgressor (ademais deveras pequeno). No caso da premiação deste último domingo, o preconceito foi em relação à narrativa extremamente clássica do filme de Ang Lee. Pois o diretor optou em filmar a história de amor entre Ennis Del Mar e Jack Twist como os grandes melodramas de antigamente, de maneira sincera e apaixonada, sem truques de roteiro ou uma fotografia e montagem “espertas”, manias tão comuns aos filmes ditos “modernos”. E isso assustou aos votantes como um fantasma de tempos passados, um retrato de Dorian Gray a mostrar para Hollywood a grandiosidade e glamour que um dia já teve e que já não consegue mais repetir.
Incomodados com o retorno em plena forma de uma linguagem que há tempos acreditavam extinta, os votantes buscaram refúgio em sua zona de conforto, ou seja, no filme que – entre os candidatos à estatueta de melhor filme – mais se enquadrava em suas expectativas de uma obra contemporânea hollywoodiana, um filme com o qual pudessem se identificar esteticamente e que ainda pudessem lhe imprimir um status de engajamento político e social. Em resumo, um cinema feito por eles e para eles.
Pois Crash é o filme que responde à imagem que Hollywood gostaria de ver de si própria – “espelho, espelho meu” –, por mais que essa imagem seja construída de forma maniqueísta e seja como os cenários dos velhos filmes de faroeste, onde as fachadas dos prédios serviam para esconder o vazio que se encontrava por trás delas: um roteiro “complexo” (mas que permita uma fácil compreensão por parte do espectador), um elenco estelar (mas escalado para um filme “independente”, cobrando uma parcela ínfima de seu cachê habitual em prol de uma “causa”), um enredo “contemporâneo” (e não um filme de época como os demais concorrentes), e enfim, um filme que nos mostre as injustiças do mundo de forma clara e direta, um pequeno mea-culpa para que possamos dormir tranqüilos à noite por termos feito uma avaliação de consciência, sem que para isso precisemos mudar um milímetro a forma como vemos o mundo ou como atuamos dentro dele (afinal de contas, a moral final de Crash se aproxima muito de um “não se preocupe, pois somos todos um pouco racistas, e esse é o equilíbrio possível”).
Some-se a isso o fato de que Crash é uma história sobre e filmada em Los Angeles (lar de 80% dos membros da Academia, numa época em que as produções – e conseqüentemente os empregos – têm sido transferidas para locais mais baratos, como o Canadá) e temos um panorama geral dos motivos que levaram à derrota de Brokeback Mountain e à escolha de Crash em detrimento dos outros três candidatos remanescentes.
Para aqueles que buscam motivos escusos nas escolhas da Academia, que apontem o dedo para o prêmio de melhor filme estrangeiro (pouco comentado que foi, eclipsado pelo efeito-Crash), onde – independentemente da qualidade dos concorrentes – Paradise Now foi tendo suas chances minadas por um lobby fortíssimo da comunidade judaica contra o representante dos “territórios palestinos”, exigindo sua exclusão da competição para conseguir, como consolação, sua não-premiação.
No caso do prêmio máximo da noite, os motivos podem ser muito mais simples do que as análises iniciais demonstram e, por isso mesmo, muito mais lamentáveis e reveladores.

14 Comments:

Anonymous Bianca said...

O filme Crash é realmente muito ruim. No cinema, senti que ele me dizia o tempo todo que aquela é a verdade do mundo, que aqueles são os norte-americanos. Cheio de esteriótipos, você é forçado a se enquadrar em um. E quando isso não acontece? É um filme que passa a impressão de ser o dono da verdade. Ele julga o tempo todo a todos. Não gostei e não via a hora de ele acabar.

10/3/06 15:24  
Blogger Leonardo Mecchi said...

É realmente um horror. O pior é que até agora não consigo entender como um filme que pretende combater o racismo consegue ser tão racista! Uma coisa impressionante...

Mas não é só isso, porque até aí teríamos que excluir Griffith e Riefenstahl pelos mesmos motivos. Além de tudo, é um filme esteticamente pobre, repleto de clichês e sem ritmo (como você mesma bem observou, não apenas não vemos a hora dele acabar, como parece que vai acabar umas 10 vezes mas, para nosso desespero, ele continua).

10/3/06 15:43  
Blogger Sérgio Alpendre said...

leonardo, vc pode me mandar um email? acho que perdi o seu, porque op que eu tenho aqui sempre volta

12/3/06 21:11  
Blogger Dri (sem alma por tempo indefinido) said...

De verdade, achei que o Jack Nicholson estava tirando uma da cara das pessoas. Nem Uma mente Brilhante ganhando há alguns anos me chocou tanto...

14/3/06 16:14  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Hehehe, o pior é que eu também pensei. Em um intervalo de décimos de segundo passou pela minha mente: "não acredito que ele está tirando sarro no anúncio do prêmio máximo", "não, mas ele não pode fazer isso porque quem ganhar vai ficar puto quando ele desmentir", "epa! então realmente ele não deve estar brincando", "essa não, o Haggis tá levantando! Ele realmente ganhou!!!"

Traumatizante...

14/3/06 16:26  
Blogger CHICO FIREMAN said...

Leonardo,

vai lá no blogue da liga. Vai começar o processo de seleção de novos membros.

www.ligadosblogues.blogspot.com

15/3/06 19:58  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Estarei lá, Chico!

16/3/06 09:12  
Blogger superpiloto said...

Não achei o Crash assim tão mau. Era demasiado maneirista e parecia que estava a policiar a nossa mente a toda a hora, mas as escolhas nos óscares também batem sempre ao lado. Por isso não vejo necessidade em me preocupar com isso.

20/3/06 11:50  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Não se trata de se preocupar com essa questão, pois realmente o Oscar é uma premiação subjetiva (como qualquer outra) vinda da maior indústria cinematográfica do mundo.

Mas como seu alcance é global, e as expectativas como nunca estavam concentradas em Brokeback Mountain devido ao caminhão de prêmios que vinha levando em todas as premiações a que concorria, acho válido tentarmos compreender o porquê dele ter sido preterido em favor de Crash

20/3/06 13:09  
Blogger superpiloto said...

Então, provavelmente o problema terá mais a ver com as expectativas que se vão criando. Os júris não devem de maneira alguma ter em conta as expectativas dos outros. Isto, pelo menos no meu entender.

20/3/06 19:05  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Na verdade, essa é uma das teorias para o fato dos votantes da Academia terem escolhido Crash: para mostrarem a todos que não gostam que lhes digam em quem devem votar.

Mas a questão não está nas expectativas criadas, mas no fato de que Brokeback Mountain tinha méritos suficientes para ter levado todos os prêmios que levou e torná-lo o mais forte candidato ao Oscar. Além disso, um grande número de pessoas (nos quais me incluo), não apenas achava que Brokeback Mountain iria ganhar (embora meu favorito fosse Boa Noite e Boa Sorte), como apontava Crash como o pior filme entre os 5 selecionados. E é isso que eu tentava discutir aqui.

21/3/06 09:26  
Blogger superpiloto said...

Ok, essa é a tua opinião, continuamos amigos. A minha continua a ser a total indiferença, o meu preferido tb era Boa Noite Boa Sorte, mas expectativas não tinha nenhumas, nem vou entrar em teorias em relação a um universo (Hollywood) que não me interessa muito, desculpa ter-me metido numa discussão que não era a minha e continuação de bom trabalho no blog. Um abraço do outro lado do Atlântico.

21/3/06 10:27  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Caro superpiloto (será o Tiago Vagaroso Monteiro?),

Fique tranquilo, você não se meteu em discussão nenhuma. Este tipo de troca de idéias que estamos tendo aqui é justamente o objetivo do blog. E discutir idéias e apresentar pontos de vista divergente é muito mais importante do que qualquer premiação.

Espero poder continuar com suas visitas transatlânticas. Abraços!

21/3/06 10:39  
Blogger superpiloto said...

De acordo

21/3/06 21:04  

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