12.1.06

Soy Cuba - O Mamute Siberiano

Soy Cuba - O Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, Brasil, 2005 - Reserva Cultural

Um documentário normalmente é admirado pelo público por um entre três fatores: a temática de que trata – a despeito das falhas do documentário enquanto linguagem (Doutores da Alegria, por exemplo) –, a qualidade e coerência estrutural do filme propriamente dito – mesmo que sua temática pudesse, em um primeiro momento, não parecer tão interessante (Edifício Master)–, ou por um equilíbrio entre os dois fatores (Nelson Freire). Soy Cuba – O Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, enquadra-se na primeira categoria: conta a fascinante história do filme Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov, primeira e única co-produção entre Cuba e a extinta União Soviética, mas de uma forma lacunar e padronizada.
Em 1o de janeiro de 1959 as forças lideradas por Ernesto “Che” Guevara e Camilo Cienfuegos chegavam a Havana e conflagravam a vitória da Revolução Cubana. Intelectuais de todo o mundo começaram a aportar na ilha – Godard, Chris Marker, Cesare Zavattini, Joris Ivens –, ávidos por registrar a revolução socialista em pleno curso em uma ilha tropical. As mudanças estendiam-se a todas as áreas, principalmente a cultural, e nesse sentido o novo governo criou o ICAIC – Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos – para criar as bases de um novo cinema cubano, popular e revolucionário. Três anos depois a União Soviética, uma das maiores interessadas no sucesso e difusão da Revolução Cubana, envia para Cuba um de seus grandes cineastas, Mikhail Kalatozov (que poucos anos antes havia levado a Palma de Ouro em Cannes pelo filme Quando Voam as Cegonhas), com a missão de realizar o que seria um grande poema épico, uma ficção dividida em quatro atos, em homenagem à Revolução, que iria maravilhar e, quiçá, converter o mundo para as benesses do socialismo. Kalatozov ainda levou para a ilha seu colaborador usual Sergei Urusevsky como diretor de fotografia e o grande poeta russo Yevgeni Yevtushenko como roteirista, além do que de mais moderno havia em termos de tecnologia, incluindo filmes infravermelhos – até então exclusividade do exército soviético.
Foram dois anos de imersão na cultura cubana, de gastos e privilégios astronômicos, e de filmagens que resultaram em algumas das seqüências mais impressionantes da história do cinema. Impossível por exemplo, mesmo para o espectador mais leigo, não ficar completamente estarrecido diante da engenhosidade de seqüências como a do funeral do estudante (incluída neste documentário). Apesar disso, o filme foi um retumbante fracasso, tanto em Cuba (onde foi acusado de ser uma visão estereotipada e falsa dos cubanos, numa polêmica semelhante à que envolveu Orfeu Negro, de Marcel Camus, aqui no Brasil) quanto na União Soviética, onde a ênfase artística do filme e seu retrato atraente da Cuba pré-revolucionária ia contra os interesses políticos daqueles que o financiaram. O filme foi prontamente arquivado e só recebeu o merecido reconhecimento mais de 30 anos depois, quando Francis Ford Coppola e Martin Scorsese o resgataram do ostracismo e o disponibilizaram para o deslumbramento de crítica e público.
O documentário de Vicente Ferraz utiliza-se da clássica estrutura de entrevistas e imagens de arquivo (garimpadas nos acervos do ICAIC) para tentar retratar a história dessa produção, de sua idealização ao reconhecimento tardio. A instigante história desse filme poderia conduzir a uma série de reflexões interessantes, como as diferenças culturais entre os dois povos (russos e cubanos) e como isso influenciou não apenas na produção do filme mas no próprio desenvolvimento do socialismo nos dois países, a possibilidade de se traçar um paralelo entre a história do filme e a da própria revolução cubana, ou ainda o eterno debate sobre a relação entre arte e política e como essa relação se alterou ao longo do tempo (influenciando, inclusive, na percepção do próprio filme), mas o documentário passa ao largo dessas questões.
Outras deficiências do documentário incomodam, como a opção por uma narração ostensiva em primeira pessoa, como se a redescoberta desse clássico tivesse sido obra de Ferraz, e a limitação dos depoimentos, que nunca vão muito além da impressão dos poucos entrevistados sobre Soy Cuba (todos ligados, de uma forma ou de outra, à sua produção), no que o tempo também teve sua culpa, devido à morte, entre 1973 e 1974, do diretor Kalatozov, de sua esposa Belka (que trabalhou na produção do filme como assistente de direção) e do diretor de fotografia Urusevsky, que poderiam dar depoimentos muito mais interessantes e reveladores sobre a obra.
Fica, após a projeção, a saudade de um tempo em que, como diz Ferraz, “o cinema era um fenômeno social e político de grande importância” e o sonho de um outro mundo ainda era possível. Fica também uma imensa vontade de (re)ver a obra genial de Kalatozov, corroborando a declaração de um dos entrevistados do documentário: “os governos são esquecidos, mas as obras-primas permanecerão”. E isso, ao final, é o que importa.

7 Comments:

Blogger Roberto Vagner said...

Olá, Leonardo. Sou o Roberto, do blog Depois Daquele Filme, li seu comentário e agradeço pelos elogios e gostaria de aproveitar e elogia-lo tb por esse blog que com certeza é um dos melhores que já li (ainda nao li tudo, começei agora pouco). Entao, nao sei se vc viu mas no blog tem um espaço para convidados, ou seja, publicaçoes de gente que nao seja os 3 abtuais e convido vc a postar algo lá, um exclusivo, que pensas? Abraço e espero manter contato.

13/1/06 22:21  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Grande Roberto!

Obrigado pelos elogios e parabéns novamente pelo Depois Daquele Filme (http://depoisdaquelefilme.blogspot.com para aqueles que quiserem visitá-lo), ademais um belíssimo nome para um blog sobre cinema.

Como estou escrevendo, além daqui, também para o Cinequanon (www.cinequanon.art.br), as possibilidades de escrever algo exclusivo pra vocês são atualmente reduzidas pela minha completa falta de tempo. Mas vamos continuar conversando, pois nunca se sabe do futuro...

Um grande abraço!

16/1/06 09:12  
Blogger Estrangeira na Ilha said...

Olá Leonardo. Será que encontro esse documentário em locadoras? Apesar da crítica, acho interessante assitir até os ruins para não cometer os mesmos erros né?!

Paula Boracini
www.nailhadefidel.blogspot.com

19/4/07 14:58  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Paula,

Até onde eu sei, o filme ainda não foi lançado em DVD...

Abraços!

19/4/07 15:38  
Blogger João said...

COMO CONSIGO ...PELO AMOR DE DEUS?!!!!
HEHE

14/12/08 14:57  
Blogger Leonardo Mecchi said...

O filme foi lançado em DVD. É possível encontrá-lo, entre outros lugares, na 2001 Vídeo aqui de SP: http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=16194

15/12/08 08:47  
Anonymous Bruna said...

Baixar o Documentário - Soy Cuba - O Mamute Siberiano - http://mcaf.ee/23qjn

3/11/13 10:06  

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