11.11.05

Cinema, Aspirinas e Urubus

Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, Brasil, 2005 - Reserva Cultural

Enquanto muitos só destacam a força do cinema brasileiro diante de filmes como Carandiru e 2 Filhos de Francisco (ambos com público em torno de 5 milhões de espectadores), aqueles com olhar mais atento podem afirmar que estão vivenciando um momento ímpar do cinema brasileiro, de uma força singular em sua história e que nada tem a ver com os tão proclamados blockbusters apoiados pela Globo Filmes ou mesmo com a poderosa indústria do eixo Rio-São Paulo.
Um conjunto de cineastas nordestinos – comparáveis aos jovens turcos da Cahiers du Cinéma em sua capacidade renovadora e revolucionária dentro do atual panorama do cinema nacional – vem produzindo obras de grande impacto, maduras e de pleno domínio técnico e narrativo. Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), Karim Aïnouz (Madame Satã), Paulo Caldas (Baile Perfumado), Sérgio Machado (Cidade Baixa) e o enfant terrible Cláudio Assis (Amarelo Manga), além de terem dirigido seus poderosos longas de estréia com estilos absolutamente pessoais mas igualmente primorosos, trabalham como um grande grupo, participando dos projetos uns dos outros.
Mais recente estréia desse grupo, Cinema, Aspirinas e Urubus (dirigido por Marcelo Gomes e com roteiro de Karim Aïnouz, Paulo Caldas e do próprio Marcelo Gomes) é um exemplo primoroso do que poderia ser o cinema brasileiro, caso se preocupasse menos com grandes bilheterias ou prêmios internacionais (o que não impediu o filme de ter sido premiado no último Festival de Cannes) e concentrasse esforços em um cinema que acredita e confia na força de sua narrativa, de seus personagens e que não olha para o Brasil de maneira condescendente ou arrogante, mas de uma forma simples e direta, abraçando essa realidade e nos devolvendo-a como uma jóia estranhamente familiar e desconhecida ao mesmo tempo.
A história de Johann (alemão fugido da Segunda Guerra Mundial que vem ao Brasil em busca de paz e liberdade) e Ranulpho (nordestino do interior de Pernambuco que foge da seca e da pobreza em direção ao Rio de Janeiro a procura de seu destino) em suas viagens pelo Nordeste brasileiro, vendendo Aspirinas no início da década de 40, nos faz reavaliar, em retrospectiva, os filmes recentes que retratam aqueles cenários e personagens, tornando sua maioria caricatural e folclórico, quando comparado à sinceridade e força desta representação.
Neste filme de Marcelo Gomes, tudo é preciso e na medida exata. Da fotografia à montagem, das interpretações à direção de arte, tudo funciona de maneira integrada, sem jamais se sobrepor à grande aposta do diretor: seus personagens e suas histórias. Impressiona ainda a capacidade de Marcelo Gomes em retirar de cada ator, mesmo daqueles com as menores pontas, uma veracidade e entrega total ao personagem e à situação em que ele se encontra. Nesse sentido, o destaque principal é João Miguel, ator de teatro baiano que foi selecionado para interpretar Ranulpho entre mais de 300 candidatos e foi recompensado com o prêmio de melhor ator no Festival do Rio – onde o filme também levou o Prêmio Especial do Júri – e na Mostra Internacional de São Paulo – quando Cinema, Aspirinas e Urubus tornou-se a primeira obra brasileira na história do festival a receber o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Internacional, além do prêmio da Crítica.
Não se trata de uma narrativa fácil, com seus tempos longos e de poucos acontecimentos, mas ao mesmo tempo há um grande apelo, um humor inerente à forma do brasileiro de observar e lidar com o mundo ao seu redor, que mantém o espectador atento a cada seqüência do filme até o seu final, quando nos despedimos com pesar dos personagens, sedentos por continuar a acompanhar suas trajetórias e destinos, assim como as desses promissores e corajosos diretores nordestinos.

3 Comments:

Anonymous Marosa said...

Fui assistir ontem(13/11) este filme e realmente fiquei apaixonada e sentindo aquele gostinho de quero mais, quero saber como estes personagens continuam desenvolvendo suas vidas.Quanto ao tema central - a amizade - este filme foi exemplar: pois conseguiu mostrar o que significa uma amizade verdadeira, aquela que reune companhia, entendimento, compreensão e,por que não, amor pelo outro sem que haja a tão comum dominação ou dependência. Ambos cresceram com este relacionamento e continuaram suas vidas em busca da sua felicidade. Adorei

14/11/05 12:54  
Blogger Fábio Gonçalves said...

Eu e o Munir fomos ontem ver este filme, depois de tantas recomendações suas. Poderia ter acontecido, como acho que aconteceu com Marcas da Violência, de eu ir pro cinema esperando muito do filme e me decepcionar. Mas não foi o caso. O filme me pareceu maravilho. A história é recheada de pequenos acontencimentos instigantes, mostrados com muita sensibilidade. É de tal simplicidade e precisão que o filme parece absolutamente claro e real, fluindo deliciosamente. Grato por mais esta dica! Abraço...

30/11/05 10:39  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Realmente é um filme bárbaro. Faço questão de recomendá-lo a todos. Estará com certeza no meu TOP 3 do ano... Abraços!

30/11/05 11:14  

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