23.12.05

Apenas um Beijo

Ae Fond Kiss..., de Ken Loach, Reino Unido, 2004 - Cabine

O argumento de Apenas um Beijo está longe de ser original, embora tenha sido modernizado e globalizado: um DJ paquistanês muçulmano (Casim, interpretado por Atta Yaqub) apaixona-se por uma professora irlandesa católica (Roisin, interpretada por Eva Birthstle) em Glasgow, na Escócia. Como é previsível, as diferenças étnicas, culturais e religiosas das sociedades às quais pertencem serão um empecilho para a concretização desse amor.
Entretanto, quem pensou em uma comédia romântica inspirada na história de Romeu e Julieta – expectativa totalmente compreensível, baseando-se no trailer que está sendo veiculado nos cinemas – engana-se. Afinal de contas, estamos falando de Ken Loach, diretor inglês de filmes como Sweet Sixteen e Meu Nome é Joe (ambos em parceria com o roteirista Paul Laverty, que também assina o roteiro deste Apenas um Beijo), conhecido por sua obra francamente engajada.
Embora não esteja em sua melhor forma neste filme, Ken Loach parte dessa premissa arquetípica da história de amor proibida e evolui para um estudo sobre a intolerância religiosa (e neste caso de qualquer religião ou crença que estigmatize e enquadre as pessoas em determinados padrões de comportamento e deveres, assunto em pauta nestes tempos de cruzadas contra o mal) e, finalmente, sobre o preconceito tout court, em uma cena que seria de certo modo obsoletamente doutrinária não fosse a precisa escolha de Strange Fruit, na voz de Billie Holiday, para acompanhá-la.
Ao longo da projeção, observamos que não estamos diante de uma história de amor clássica. Recriminações e acusações mútuas entre o casal ocorrem o tempo todo, não há declarações arrebatadas de amor eterno (constantemente questionada pela irmã de Casim sobre a duração de seu amor, Roisin diz que só pode responder pelo que sente naquele momento) e o filme ainda questiona a noção de que o amor supera tudo e que deve sempre guiar nossas decisões, ao destacar as conseqüências que tais decisões infringem não apenas em quem as toma, mas nas pessoas que os cercam, mostrando que as escolhas nem sempre são tão fáceis quanto alguns filmes nos fazem acreditar.
Infelizmente, o filme é bastante irregular e o diretor não consegue abrir uma trilha limpa para o que quer contar em meio às arestas mal aparadas. Algumas viradas no roteiro não funcionam e parecem esquematizadas demais (uma falha recorrente no cinema de Ken Loach, que prioriza a mensagem que deseja passar em detrimento à narrativa que está desenvolvendo), as tramas paralelas – a emancipação da irmã mais nova e o desejo de Casim de abrir o próprio bar – carecem de interesse e força, e o final, embora deixe em aberto o futuro dos personagens (não há uma inclinação para o “... e eles viveram felizes para sempre”), parece apressado e simplista, desonestamente próximo do happy end.
Apesar de suas várias deficiências, ainda é um filme que vale a pena, desde que não se tenha grande expectativa sobre ele. As bem resolvidas cenas de sexo, as boas interpretações de Eva Birthstle e de Ahmad Riaz (que interpreta Tariq, pai de Casim, responsável por muitos dos alívios cômicos do filme mas também por alguns de seus momentos mais dramáticos) e a honestidade e isenção com que retrata as visões e contradições de ambos os lados trazem inegável simpatia a este pequeno e atraente filme de Ken Loach.

2 Comments:

Anonymous Eduardo Aguilar said...

Gostei de seu texto sobre o filme de Loach, pq. acima de tudo, me parece sincero e honesto e não apenas mais um desses críticos q. entram na onda da Cahiers p/ apontar problemas no 'pseudo' esqematismo dos filmes de Loach, q. qdo encontrados em alguns filmes de monstros sagrados do cinema contemporâneo, são simplesmente ignorados.

Realmente há problemas de roteiro, mas acho q. de um modo geral, a mise'en'scène dribla a maioria deles, como se espera de um gde diretor, um bom ex. é a cena ao som de Billie Holiday com vc. bem citou. Discordo de 02 coisas:
-sobre o final, me parece um achado o happy-end do casal, pois Loach optou por dar tons trágicos a trama e o happy-end quebra em parte nossas expectativas, ainda q. aos meus olhos, fique claro q. a felicidade se estabelece muitas vezes a partir da ruptura, e isso tem a ver com a reação do pai a saida da filha, q. acho um personagem interessante mal desenvolvido.
-Sobre a cena do Padre, acho-a bem pertinente e até mesmo complexa em certo sentido, pois qdo o Padre questiona se a garota espera dele uma atitude burocrática, a situação se inverte, e por um momento, além da hipócrisia da Igreja, é possível enxergar a da garota vivendo uma situação de conveniência, romper não é fácil!!

27/12/05 18:51  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Aguilar,

O problema com a cena do padre é que ele aparece de forma muito caricatural do meu ponto de vista. Bravejando aos quatro ventos a heresia de Roisin como se estivéssemos na Idade Média.

Não conheço a linha da Igreja católica na Escócia, mas não acho que seja por aí. De qualquer forma, essa cena peca também pela esquematização (sei que você não gosta desse termo vinculado ao cinema do Loach, mas acho que se aplica aqui) de que estávamos falando, pois na cena anterior os dois estavam discutindo e Casim diz algo do tipo "vc não entende pois não tem nada a perder neste relacionamento" e de repente, de uma hora pra outra, aparece o plot dela precisar da aprovação do padre pois caso contrário perderá o emprego.

Então ele parece colocado lá não como um personagem, mas como uma desculpa para poder tratar essa questão, entende? E é isso que quero dizer com "ele coloca a mensagem que quer passar acima da narrativa e dos personagens".

Concordo que a cena poderia colocar em pauta a hipocrisia de Roisin, mas ela nunca se posiciona como uma católica praticante, então não creio que haja muita contradição em suas ações.

De qualquer forma, valeu pelo comentário e parabéns pelo blog, que não conhecia...

28/12/05 09:21  

Postar um comentário

<< Home