10.2.06

Syriana - A Indústria do Petróleo

Syriana, de Stephen Gaghan, EUA, 2005 - Cabine

O presidente americano George W. Bush afirmou em recente pronunciamento que “os Estados Unidos estão viciados em petróleo”. Em Hollywood, ninguém entende mais disso do que Stephen Gaghan, roteirista de Traffic (um intrincado estudo sobre o tráfico de drogas e todas as suas ramificações) e deste Syriana (onde também atua como diretor), que se utiliza dos mesmos recursos de seu predecessor, mirando desta vez na indústria do petróleo e suas implicações políticas, econômicas, sociais e religiosas.
Syriana é mais um exemplar da recente safra de filmes políticos indicados ao Oscar deste ano (o filme de Gaghan ficou com as indicações de melhor roteiro adaptado – baseado nas memórias do ex-agente da CIA Robert Baers – e ator coadjuvante para George Clooney), que incluem Boa Noite e Boa Sorte, Munique, O Jardineiro Fiel, o palestino Paradise Now e o alemão Uma Mulher Contra Hitler. O que o diferencia é, sem dúvida, a complexidade do roteiro de Gaghan, que aposta num thriller geopolítico para prender o interesse do espectador e entrelaça nada menos que cinco histórias simultâneas: a de Bob Barnes (George Clooney), agente veterano da CIA que trabalha há décadas no Oriente Médio e passa a suspeitar dos motivos obscuros de suas missões; a da fusão entre duas companhias de exploração de petróleo (Connex e Killen) que acaba levantando suspeitas do Departamento de Justiça norte-americano quanto à lisura de seus processos; a de Bryan Woodman (Matt Damon), consultor especializado em negócios de energia que passa a viver a realidade que antes só era representada através de números em um computador; a do príncipe Nasir Al-Subaai (Alexander Siddig), provável sucessor de um importante Emir do Oriente Médio e que, por sua visão humanista e reformista, acaba tornando-se um empecilho à política norte-americana na região e, finalmente, a de Wasim Ahmed Khan (Mazhar Munir), um paquistanês imigrante que, após perder o emprego em uma refinaria, envereda para um perigoso fundamentalismo religioso. Procurando equilibrar esses enredos, Gaghan realiza um filme-painel, onde cada parte tem sua parcela de responsabilidade sobre o estado atual das coisas, embora ninguém consiga enxergar com clareza o todo.
Stephen Gaghan declarou em uma entrevista que “vivemos numa época difícil e complexa, e eu queria que Syriana refletisse essa complexidade de uma maneira visceral, em sua narrativa. Não há mocinhos e vilões e nem respostas fáceis”. Na busca por retratar essa complexidade dos tempos atuais, onde o limite entre o certo e o errado é cada vez mais nebuloso (há no filme um discurso sobre a corrupção como um dos grandes valores americanos que é exemplar nesse sentido) e as conseqüências dos interesses públicos e privados extrapolam em muito as fronteiras dos territórios e indivíduos, o enredo de Syriana acaba por vezes tornando-se confuso e de difícil apreensão, cabendo ao espectador mais senti-lo que compreendê-lo. Entretanto, tal deficiência acaba por corroborar de certo modo a tese do diretor, que acredita que o assunto seja intricado demais para que qualquer um possa compreendê-lo em sua totalidade. O mesmo ocorre no desenvolvimento de seus personagens: embora opte por atores prontamente identificáveis (o que facilita um mínimo acompanhamento do enredo), o diretor não permite que se crie uma empatia maior do espectador com nenhum desses personagens, de modo a evitar que o público assuma a visão desse personagem como a “correta” ou “verdadeira”, em meio a tantas outras possíveis.
Uma certa amoralidade permeia todos o filme e, para o diretor, essa ausência de moral parece ter uma mesma origem: a desestruturação do núcleo familiar. Pois se há algo em comum aos personagens além de suas relações mais ou menos diretas com a indústria petrolífera, é sua incapacidade de manter os vínculos familiares. Isso ocorre com Bob Barnes, que está em permanente confronto com seu filho devido às constantes mudanças que impõe à sua família; está presente na relação conflituosa entre Bennett Holiday (Jeffrey Wright), advogado contratado para investigar a fusão Connex/Killen, e seu pai alcoólatra; atormenta Bryan Woodman, que após a morte do filho mais velho vê sua família desmoronar enquanto se refugia em sua carreira; motiva a luta fratricida entre o Príncipe Nasir e seu irmão pela sucessão ao Emir e, por fim, é também um fator fundamental na busca de Wasim pelo fundamentalismo religioso, após deparar-se com a atitude conformista de seu pai diante das injustiças a que são submetidos. Com essa correlação, Gaghan busca expandir seu estudo sócio-político para englobar também o comportamental.
Syriana – que no jargão político designa uma hipotética reformulação de países do Oriente Médio – peca muitas vezes pelo excesso de pretensão e artifícios, tomando para si um desafio além de sua capacidade, mas ainda assim trata-se de um filme denso, capaz de gerar múltiplos e importantes debates, e que consegue fugir da tentação de fornecer respostas fechadas a questões intrinsecamente abertas.

6 Comments:

Blogger Ailton said...

Devo conferir esse amanhã. Mas confesso que estou com um pouco de preguiça de ver filme político de quase três horas. hehehe

10/2/06 17:06  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Ailton,

Fique tranquilo que o Gaghan conseguiu manter um ritmo bom durante todo o filme, um thriller mesmo.

Vá lá e depois me diga o que achou...

10/2/06 17:19  
Blogger Sérgio Alpendre said...

eu achei irregular demais.

11/2/06 18:05  
Anonymous Marcelo Miranda said...

Olá, Mecchi, como vai?
Primeira vez que acesso teu blog, apesar de já te ler regularmente na Cinequanon. Gostei da página, muito boa de acompanhar. Vou linka-la no Impressões Cinéfilas (http://impressoescinefilas.blogger.com.br), o meu blog - não sei se conhece, mas desde já está convidado a visitá-lo sempre, como farei aqui também.
E tenho ainda um site, o Cinefilia (www.canalcinefilia.com.br), junto com outros amigos.
Mantemos contato! Abraços.

13/2/06 01:43  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Grande Miranda!

Não apenas conheço o Impressões como o visito com frequência. E também lei teus ótimos textos no Digestivo Cultural. Só não conhecia o Cinefilia. Vou visitá-lo...

Abraços e seja bem vindo ao Enquadramento!

13/2/06 08:56  
Blogger Unknown said...

Baixar o Filme - Syriana - A Indústria do Petróleo - O capitalismo não existe sem desperdício. E devemos agradecer isso aos EUA - http://mcaf.ee/812jo

7/11/13 21:28  

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