6.7.06

Herencia

Herencia, de Paula Hernandez, Argentina, 2001 - Cabine

Criou-se nos últimos anos uma daquelas verdades absolutas que surgem periodicamente, vaticinando desta vez que nossos hermanos argentinos vêm produzindo um cinema muito superior ao nosso. Tal teoria ganhou ainda mais força após o polêmico artigo publicado na Revista de Cinema por um de nossos maiores estudiosos, Jean-Claude Bernardet, intitulado nada sutilmente “Os argentinos dão um banho nos brasileiros”.
O fato é que, se temos a sensação de excelência do cinema argentino, isso se deve porque esse cinema a que temos acesso é apenas um pequeníssimo recorte da enorme produção daquele país. O que chega ao Brasil, na maioria dos casos, é o que de melhor se produziu em nosso vizinho. O argentino que só tivesse acesso a filmes como O Invasor, Lavoura Arcaica, Madame Satã e Cinema, Aspirinas e Urubus, por exemplo, certamente afirmaria o alto nível dos filmes brasileiros, em detrimento da pobreza de sua produção média.
Para cada filme de Lucrecia Martel, Pablo Trapero ou Lisandro Alonso, a Argentina produz – assim como o Brasil – uma infinidade de filmes medianos ou até mesmo medíocres, comédias de costume que visam o grande público e que em pouco ou nada contribuem para a cinematografia argentina.
Herencia, longa de estréia da diretora Paula Hernandez, é um desses filmes que, de tempos em tempos, irrompe por estas paragens, derrubando a tese comum e demonstrando que os argentinos também sofrem de muitos dos males de nosso cinema. Trata-se de uma típica comédia dramática onde dois estrangeiros (ele, um jovem recém-chegado da Alemanha em busca de uma garota pela qual se apaixonou há dois anos; ela, uma sexagenária italiana que veio para a Argentina durante a 2a Guerra Mundial e por lá se estabeleceu) se encontram por acaso e acabam construindo uma amizade – aos trancos e barrancos – com a qual irão aprender e amadurecer. Uma história que já foi contada uma infinidade de vezes, o que leva o espectador a uma contínua sensação de déjà vu ao longo da projeção, embora isso não seja algo que desabone o filme a priori. O problema, no caso do filme de Hernandez, é que essa história é narrada através de uma infinidade de clichês e lugares comuns, tanto no roteiro quanto na linguagem utilizada.
Como bem apontou o crítico Eduardo Valente, Herencia pertence à mesma linhagem de O Filho da Noiva – um melodrama com pitadas de comédia, apelo popular e linguagem clássica – mas em tudo perde na comparação para o filme de Campanella. O enredo previsível, os momentos cômicos mal construídos (concentrados em sua maior parte no personagem alemão), a trilha sonora completamente equivocada, a fotografia simplória, tudo contribui para afastar o espectador do drama daqueles personagens.
Há, na verdade, uma bela história soterrada sob o filme de Hernandez, que é a história de Olinda, a imigrante italiana que precisa resolver a decadência de seu restaurante e a nostalgia de sua terra natal. Há em alguns momentos de Olinda – não em todos, mas alguns – uma verdade, uma vitalidade, uma crença por parte de Hernandez naquele personagem, que não existe em nenhum outro do filme. Ajuda a explicar esses lampejos de vida e interesse da personagem o fato de que Olinda, segundo a própria diretora, foi inspirada em sua avó, logo após seu falecimento. Tal proximidade de um fato trágico, vinculado a uma pessoa tão próxima, pode ter ajudado a diretora a se envolver e superar o esquematismo com o qual construiu todo o restante do filme.
O fato é que, infelizmente, a inexperiência de Paula Hernandez pesou, e muito, nessa sua estréia, fazendo com que mesmo uma despretensiosa comédia terminasse pesada, sem ritmo e desinteressante. Diferentemente da sabedoria popular, os argentinos também erram em seu cinema.

6 Comments:

Anonymous Marcos A. Felipe said...

Dos poucos que vi gostei muito: os da Martel - é claro -, Histórias Mínimas (um belo filme) e Do Outro Lado da Lei - num curti filmes como O Filho da Noiva, nem tampouco Nove Rainhas... Mudando de assunto: sabes como eu destravo o carajo dos meus aparelhos de DVD (Sony e Philips) para poder ver um filme do Pedro Costa que recebi de Portugal? Dizem que tem um lance que isso é possível! Abs.

10/7/06 23:41  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Marcos,

Gosto do "Histórias Mínimas", mas o filme seguinte do Sorin ("Cachorro") é bem fraquinho.

"O Filho da Noiva" e "Nove Rainhas" acho que funcionam muito bem no que se propõem (melodrama no caso do primeiro, filme policial/noir no segundo).

Quanto ao DVD, me mande um email (o link tá no alto da página) que conversamos sobre isso. Qual filme do Pedro Costa você tem aí?

11/7/06 13:55  
Anonymous Marcos A. Felipe said...

O link para seu email não abre - talvez seja problema no meu pc. Então, fica o meu email (aurelio.felipe@uol.com.br) para trocarmos informações sobre como destravo os carajos (risos) de meus aparelhos de DVD. Isso está me cheirando a quebra de normas internacionais e conspiração contra as multinacionais (hehehe). Ah, o filme do Pedro Costa que tenho aqui é o documentário Onde Jaz O Teu Sorriso? sobre o casal Straub - justamente porque meus aparelhos não aceitam discos da Região 2, eu ainda não o vi.

11/7/06 18:32  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Já te mandei um email. Quanto aos serviços de consultoria, nada que uma cópia desse DVD não pague, hehehe...

12/7/06 09:00  
Anonymous Marcos A. Felipe said...

Ok, já recebi teu email e quando chegar em casa eu passo os dados dos aparelhos - Sony e Philips. Promessa é dívida! hehe

12/7/06 11:45  
Blogger nuestras estorias said...

olá! vi este filme qdo estreiou no cinema e me marcou mto. lembro da cena dela sentada na raiz de uma árvore o que marca bem as raízes dela, em onde estavam fincadas? itália ou argentina! descobri este texto pq acabo de citá-lo no meu blog falando de identidade. acho que ilustra absolutamente! abs, Carolina.

9/8/11 11:22  

Postar um comentário

<< Home