9.10.06

Dália Negra

The Black Dahlia, de Brian De Palma, EUA, 2006 - Cabine

De Palma é um virtuose, quanto a isso restam poucas dúvidas. A questão que muitas vezes é colocada por seus detratores é se tal domínio técnico é usado a favor de seus filmes ou em proveito próprio. A esse dilema provavelmente insolúvel, Dália Negra fornece numerosos exemplos para se defender ambas as teorias: o plano seqüência na grua que revela o crime que dá nome ao filme, o plano subjetivo que apresenta a família disfuncional da personagem de Hilary Swank, a câmera lenta no momento do assassinato do policial na escadaria. Para alguns, puro deleite visual. Para outros, um desnecessário exibicionismo técnico.
Outra acusação que persegue De Palma desde o início de sua carreira também encontra suficiente combustível neste filme: a do diretor que abusa de referências e homenagens a outros filmes e diretores. Do uso de trechos de O Homem Que Ri, de Paul Leni, à citação de Dália Azul (filme que inspirou a alcunha do crime verídico no qual se baseia esta obra de De Palma), da inegável inspiração em Crepúsculo dos Deuses (na aparição final de Ramona) ao cinema de rua exibindo Anjo Diabólico (o clássico noir de Roy William Neill), exemplos não faltam para alimentar seus acusadores.
Mas para além desses estigmas e polêmicas, o que podemos tirar desta mais recente obra de Brian De Palma? Um atestado inegável de um artista em pleno domínio de sua linguagem, que nos entrega um dos mais belos filmes do ano e, desde já, um clássico moderno do cinema noir.
Para os amantes do gênero, o filme é um prato cheio. Intrigas, assassinatos, mulheres fatais, tramas intrincadas, climas soturnos, investigações e traições, tudo está lá. Mas como sempre nos filmes de De Palma, nada é exatamente o que parece. A vítima de ontem torna-se o suspeito de amanhã e o jogo de espelhos e sombras está em todo lugar. A dificuldade em se encontrar a verdade por trás da imagem que vemos é, na realidade, o principal tema de Dália Negra - algo evidente na cena em que Bucky testemunha o tiroteio em que se envolve seu parceiro. Em uma cidade concebida para tornar o sonho realidade, o quanto devemos confiar naquilo que vemos?
Fica o alerta para aqueles que costumam dar demasiada importância e atenção ao desenrolar da trama e seus mistérios: há sérios riscos de que acabem decepcionados. Não apenas porque no último quarto do filme De Palma acumula revelações numa velocidade atordoante (e elas pouco ajudam o espectador a compreender todas as implicações do que viu nas últimas duas horas), mas também – e principalmente – porque o que importa verdadeiramente ao diretor não é a trama, mas as imagens. É do poder dessas imagens em esconder e revelar a verdade que De Palma tira a força de seu belo e polêmico cinema. Para os que souberem apreciá-lo, é um prato cheio.

8 Comments:

Anonymous Erick said...

Acredito que a questão principal no que se refere aos filmes de De Palma não é tanto o uso excessivo de referências ao estilo e à obra de outrem ou o citado "exibicionismo técnico" - que é, mais, sintoma de um problema do que o problema em si -, mas sim a ausência de elegância em seus filmes. À exceção de "Os Intocáveis" (na minha opinião, seu melhor filme), praticamente todos os outros se ressentem de um certo "clima histérico" e "over". Veja-se, por exemplo, "Irmãs Diabólicas", "Carrie, A Estranha", "Vestida para Matar", "Scarface", "Dublê de Corpo", "Síndrome de Caim", etc. Todos eles, por mais interessantes que sejam, sempre me remetem ao tom "grand guignol" de "O Que Teria Acontecido a Baby Jane?". Falta elegância, sutileza. Ainda não assisti a "Dália Negra". Estou muito curioso, pois o gênero noir, via de regra, trabalha nas zonas cinzentas, não no branco-e-preto berrante...

10/10/06 13:25  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Erick,

Bom tê-lo de volta por aqui!

Na verdade, eu mesmo não costumo ser um dos maior entusiastas do De Palma. Muitas das restrições do público de que falo no texto são restrições minhas mesmo.

Mas neste "Dália Negra" ele acertou a mão em cheio, filmando com maestria, com pleno domínio do que está fazendo. É claro que ajuda o fato de eu ser fã do gênero noir, mas achei um grande filme.

Quando o assistir, me diga o que achou. Abraços!

10/10/06 15:46  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

10/10/06 15:47  
Blogger Filipe Furtado said...

O DE Palma tem na verdade um certo asco do bom tom e do bom gosto. Não é a toa que quem não gosta do cara costuma abrir exceção justamente para Os Intocaveis, que é o mais proximo de um filme de pau mandado que ele fez.

10/10/06 18:18  
Anonymous Erick said...

Leo, espero assistir a "Dália Negra" o mais rapidamente possível!

Filipe, não sei se se pode dizer que De Palma tem "asco" em relação ao bom gosto e à elegância. Considero "Os Intocáveis" um filme de muito bom gosto. Acho que a questão é um pouco mais complexa. Os filmes em que aparece o "clima histérico" que citei possuem, todos eles, personagens também "histéricos", psicologicamente transtornados. Na minha visão, falta a De Palma, que tem um inegável apreço por esse tipo de personagem, um distanciamento em relação à situação dos mesmos que permita com que a relação entre diretor e personagem seja menos distorcida e mais neutra (como ocorria com Hitchcock). Ao tentar mostrar seus seres problemáticos como problemáticos, suas cenas se tornam, inconscientemente e por essa certa "inépcia", "problemáticas" também. Há um transbordar de características dos próprios personagens que faz com que as cenas em que eles aparecem se tornem "over", grotescas. Penso que isso é conseqüência direta das mudanças de sensibilidade que ocorreram nas artes em geral durante a década de 60, quando o grotesco foi instituído como algo a ser desfrutado, não evitado. Os filmes de De Palma, em geral, que vieram depois dessas transformações, evidenciam claramente a realidade de ausência de uma linha imaginária que compõe a fronteira do "grotesco a ser evitado". Encarando-se sob esse prisma, De Palma e Fellini, por exemplo, possuem, ainda que remotamente, um certo parentesco estético...

10/10/06 20:37  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Hmmmm, Filipe e Erick discutindo De Palma! Essa eu vou assistir de camarote...

11/10/06 14:35  
Blogger Fábio Gonçalves said...

Será que este blog pode ter fins didáticos também?

O problema é que, apesar de já ter ouvido falar muito, eu não sei o que é cinema "noir".

Já que o Pai dos Burros de Holanda Ferreira não pode me ajudar neste caso, será que você poderia me dar uma aulinha?

Abraço!

13/10/06 12:45  
Blogger Leonardo Mecchi said...

Fábio,

O filme noir é um caso curioso.

Há quem diga que ele não pode ser considerado um gênero cinematográfico, pois não há um único filme que contenha todas as características que, teoricamente, compõem um filme noir. Ao mesmo tempo, bastam alguns segundos de projeção para imediatamente se identificar um filme noir. Isso acontece porque um noir é mais uma questão de clima e ambientação do que de regras a serem seguidas.

Basicamente, o noir enquanto gênero é associado a filmes policiais, ambientados normalmente nas décadas de 40 e 50 e em grandes cidades (principalmente Los Angeles). Visualmente, costumam se realizado em preto-e-branco, utilizando-se bastante das sombras e dos altos contrastes de cenários noturnos e interiores sombrios. Envolvem normalmente crimes e assassinatos, policiais corruptos, mulheres fatais e afins. A moral em um filme noir é sempre algo bastante ambíguo e nebuloso.

Um filme que você deve ter visto que retoma o gênero é "Los Angeles: Cidade Proibida". Mas há grandes clássicos do gênero como "O Falcâo Maltês", "A Dama de Shanghai" ou "A Marca da Maldade". Mais recentemente, você tem filmes como "Chinatown", "O Homem Que Não Estava Lá" ou mesmo "Sin City", que foram influenciados pelo filme noir.

Espero ter ajudado...

Abraços!

13/10/06 14:43  

Postar um comentário

<< Home